Algumas pessoas afirmam que a criação de animais para o consumo de carne é, por definição, algo cruel que viola os direitos dos animais. Geralmente essa afirmação vem associada com a afirmação de que o ser humano não deve comer carne, seja porque a nossa espécie é, por definição, vegetariana, seja porque é totalmente possível para o ser humano ter uma vida saudável sem incluir alimentos de origem animal. Existem também pessoas que não comem carne por motivos religiosos ou filosóficos. E há inclusive pessoas que abrem mão de todos os produtos de origem animal, incluindo leite e ovos (esses são os veganos). Diante disso, irei expor minha opinião sobre o assunto. Deixo claro aqui que sou contra essa posição e vou expor aqui o porquê:
- O ser humano é onívoro: o sistema digestório do ser humano é capacitado para consumir proteína de origem animal. De modo geral se exige o cozimento da carne para digestão e segurança alimentar, isso é verdade, Porém, o consumo de carne crua está presente em diversas culturas (cito aqui os inuits e os mongois). Foi essa flexibilidade alimentar que permitiu que o ser humano ocupasse uma grande diversidade de ambientes e se espalhasse por vários locais pelo mundo. Além disso, os grandes primatas, que são os animais mais parecidos conosco (chimpanzés, gorilas, orangotangos, bonobos) também podem consumir proteínas de origem animal (insetos, pequenos roedores, pássaros, ovos), embora deem preferência aos vegetais. Não possuímos as "armas" comuns aos predadores (garras e dentes afiados, por exemplo), porque essas armas naturais são necessárias para derrubar e matar animais de grande porte, e na natureza nos alimentaríamos apenas de animais de pequeno porte. Porém, graças à inteligência e engenhosidade do ser humano, adquirimos capacidades que excedem nossas limitações físicas, podendo assim matar animais maiores do que nós. Sobre a dentição em particular, convém lembrar que nos carnívoros os dentes servem para prender, rasgar e principalmente matar, e não para mastigar. Como os humanos não usam os dentes para matar sua presa, sua dentição não indica necessariamente que ele não pode consumir carne. Aliás, a capacidade de mastigar facilita o processo digestório, de modo que o ser humano não precisa ter sucos digestivos potentes como os carnívoros possuem.
- O ser humano pode prosperar com uma dieta predominantemente animal: há pelo menos três grupamentos humanos que conseguiram prosperar com uma dieta baseada em alimentação animal: os Inuits (esquimós), os Mongois e povos nômades da África oriental (Massai, Samburu, Rendile). Esses povos viveram e vivem em locais onde a agricultura é impraticável, vivendo ou da pesca (Inuits) ou do pastoralismo nômade e da caça (Mongois e as tribos citadas acima), sendo o consumo de vegetais oportunístico. O fato desses povos terem prosperado nessas condições (há inclusive indivíduos que atingem idades avançadas, quando as condições permitem), mostra que a dieta predominantemente vegetal não é imprescindível para a subsistência humana e que a carne pode sim fazer parte de uma alimentação saudável.
- Uma alimentação totalmente sem carne exige muitos cuidados para ser adequada: carne possui proteínas, gorduras e diversos micronutrientes (vitaminas A, D, B12, zinco e outros). Proteínas e gorduras podem ser facilmente obtidos de fontes vegetais, mas de modo geral pessoas vegetarianas tendem a ter dietas pobre nesses componentes e com um excesso de carboidratos. Já outros nutrientes (princpalmente B12 e zinco) são difíceis de se obter sem a ingesta de alimentos de origem animal. Mantendo-se leite e ovos ainda é possível obter esses nutrientes da alimentação. Mas a dieta vegana, que é muito restritiva, pode exigir a reposição artificial desses nutrientes. Uma dieta vegana só é possível se consumirmos uma grande variedade de alimentos ou se tivermos conhecimentos adequados sobre nutrição (em muitos casos ajuda profissional pode ser necessária). Diante disso, manter tal dieta pode ser caro ou logisticamente difícil.
- Há pessoas que não se adaptam à dieta vegetariana: alguns indivíduos de fato necessitam de carne para se manter saudáveis. Há casos de pessoas que abraçam o vegetarianismo só parcialmente ou desistem dele justamente por causa disso. Negar à esses indivíduos o acesso à carne ou censurá-los por não se adaptar a essa alimentação seria no mínimo incoerente e desrespeitoso.
- Dieta vegetariana exige domínio de técnicas de agricultura: nossos ancestrais, antes de dominarem a agricultura, precisavam comer tudo que estava disponível, e em tempos de escassez de alimentação vegetal (como o inverno ou secas), consumir carne poderia ser a única opção. Em campos e pradarias, a única forma de obter as calorias presentes nas gramíneas (grama, capim) é comendo os animais que as consomem (o que é a base da subsistência dos povos pastoralistas). Foi graças a agricultura que a fixação dos povos em certos locais (sedentarismo) foi possível. Porém, esses povos sedentários nunca abandonaram totalmente o consumo de alimentação animal. Mesmo na Índia, onde surgiram vários costumes e restrições religiosas ao consumo de carne, tais restrições não eram rigorosamente seguidas pela população geral e o consumo de leite e derivados continuou sendo parte importante da dieta dessa população. Porém, a agricultura era limitada em vários aspectos, e foi só nos últimos séculos, com os avanços da tecnologia, que a produção de alimentos pôde alcançar níveis mais elevados (fertilizantes artificiais, mecanização da agricultura, defensivos agrícolas, genética, biotecnologia). Uma dieta completamente vegetariana só é possível nos dias de hoje, porque temos a tecnologia disponível para produzir esses alimentos.
- Alimentos de origem animal são saborosos: leite, carne e ovos por si só são saborosos e fazem parte de receitas de diversos alimentos. A tentativa de substituir esses ingredientes em receitas e preparações pode não obter o resultado gastronômico desejado. Mas isso não representará problema se a pessoa conseguir obter satisfação gastronômica com essas restrições, se isso lhe trouxer outras compensações ou se tal satisfação não for tão significativo para ela.
- Animais podem sofrer menos quando criados por seres humanos: Os animais de criação de hoje podem desfrutar de uma qualidade de vida muito superior à de animais que vivem na natureza. Por exemplo:
* Na natureza os animais não recebem nenhuma assistência para ferimentos e doenças, podendo ficar doentes por tempo relativamente longo até sua morte. No cativeiro esses animais podem receber tratamentos veterinários, o que reduz seus sofrimentos.
* Animais na natureza precisam se mover constantemente a procura de comida e água. No caso do pastoralismo isso não muda muito (pode até ser um pouco melhor dependendo das técnicas de pastoreio). Mas na criação em fazendas, isso muda bastante, porque os criadores vão procurar manter a criação bem alimentada e descansada (para ganhar peso mais rapidamente). Isso faz a vida desses animais mais confortável, desde que se respeite as regras de confinamento animal e não se pratique aglomeração excessiva.
* Na natureza, todo dia predadores procuram por presas para se alimentar. Esses ataques indiscriminados, embora façam poucas vítimas, impõem medo e tensão aos outros animais do bando ou rebanho, e desde o nascimento os animais estão sujeitos a frequentes ameaças de morte. No cativeiro, em condições usuais, os animais serão protegidos pelos seus criadores e só se sentirão ameaçados de morte quando chegar a época do abate.
* Na natureza predadores precisam perseguir suas presas e lutar com elas, para que estas fiquem fora de combate e possam ser devoradas. É possível inclusive que eles comecem a devorar suas presas enquanto estas estão vivas, o que lhes causa uma morte dolorosa. Ainda há a possibilidade de a vítima do ataque sobreviver e ficar ferida, o que pode prolongar seu sofrimento. No cativeiro, um abate humanitário é feito de modo a minimizar o sofrimento e ser o mais rápido e indolor possível. Muitas vezes o animal abatido nem faz ideia do que está acontecendo, desfrutando de uma morte tranquila. E quando o animal é ferido no abatedouro, certamente não escapará do abate.
- Animais não fornecem apenas carne quando mortos: couro, fezes, ossos, chifres, sangue, nitrogênio, fósforo, elementos químicos. Praticamente todos os resíduos do abate animal podem ser aproveitados para o uso humano, e não há nada de errado nisso. Pelo contrário, uma vez que se tirou a vida de um animal, deve se tentar extrair o máximo possível dessa morte, para que não se diga que tal morte foi vã ou inútil.
- O abandono da pecuária irá gerar um problema ecológico: se o consumo de carne for abandonado, será preciso dar um destino aos animais em cativeiro. Só há duas opções economicamente viáveis: o abate e a soltura. Como o abate não seria aceito pelos produtores, que perderão um produto de qualidade, nem pela população, que aderiu a dieta vegetariana, entre outros motivos, justamente para evitar a morte animal, se optará pela soltura. Nem é necessário que o veganismo seja adotado em larga escala. Se o ovolactovegetarianismo for a regra da alimentação mundial, animais que não produzem leite, nem ovos, nem outros produtos úteis (como a lã) terão que ser soltos na natureza. É o caso do porco, do galo e do touro, por exemplo (esses dois últimos seriam mantidos apenas em número mínimo no cativeiro para reprodução). Soltos na natureza, esses animais irão se alimentar das plantas que encontrarem, causando problemas ecológicos e ambientais. Esses animais sofrerão ataques de predadores naturais e esses predadores irão se proliferar, aumentando o risco de ataques à humanos. Anos de pesquisa em melhoramento genético serão perdidos, e esses animais evoluirão para um estado feral, selvagem.
- Os animais continuarão a ser mortos: no cenário acima, os animais serão mortos ou por outros animais, ou pelo próprio homem. Se os animais libertos representarem risco ao ambiente, terão de ser sacrificados. Se o aumento do número de predadores levar a ataques à humanos, os humanos os matarão para se defender. A morte por ação de outros animais é uma Lei da Natureza e não deixará de existir, soltá-los não irá mudar isso. Soltar esses animais, na melhor das hipóteses, nada mais é que uma transferência de responsabilidade, quando não gera situações que obriguem os humanos a matar esses animais de qualquer forma.
- Uma opção para controlar a população de animais libertos será a esterilização em massa: por cirurgia, métodos físicos ou farmacológicos, seguidos de uma soltura controlada desses animais na natureza. Pois se não forem esterilizados, se reproduzirão na natureza e causarão problemas ambientais. Só que essa alternativa é impraticável, do ponto de vista econômico. Mas caso seja realizada, deverá ser feita de modo criterioso, para que não se mostre inútil (o que seria um desperdício de recursos) nem coloque esses animais em risco de extinção.
As lutas para a promoção do vegetarianismo, creio eu, são lutas inúteis, que não assegurarão o maior objetivo dos vegetarianos para os animais (protegê-los do sofrimento e da morte). Pode ser que dedicar as áreas atualmente destinadas à pecuária para a agricultura de fato aumente a produção mundial de alimentos. Mas isso não é possível em certos ambientes (no quais a única atividade de produção viável é a pecuária) e nem atacará a principal causa de fome no mundo, que é a má distribuição de alimentos, que está vinculada à pobreza, que tem diversas causas. Respeito quem adota esse estilo de alimentação para si mesmo, desde que não tente impor essa alimentação à outras pessoas (nem mesmo seus fílhos), que baseiem suas condutas em fatos científicos, que fiquem atentos à sua saúde e que saibam reconhecer os problemas que tal dieta pode causar, abrindo mão dela se for necessário.
Até breve.
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